No dia 25 de junho o Programa Semeando Água, uma parceria entre o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas e a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental – estabelecida por meio de convênio entre as duas instituições, realizou sua primeira visita técnica. Em um movimento que alia a sofisticação da cafeicultura à necessidade de conservação de solo no Sistema Cantareira o intercâmbio de experiências entre agricultores levou Rodrigo Fernandes, responsável pelo Centro de Cafés Especiais de Alto Rio Novo, do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (INCAPER) às propriedades de dois Semeadores de Água em Nazaré Paulista.
A ciência do solo que alimenta a água
Na visita técnica foi possível observar que o cultivo do café vai muito além da lavoura. As propriedades de Jocilene e Silas Moraes e de Sandro Trevisan, estão locadas em uma área estratégica para o abastecimento hídrico, e a aposta no Sistema Produtivo Sustentável tem se mostrado uma fonte de renda que traz sustentabilidade para o território. Antes ocupada por pastagem, a terra onde hoje crescem os pés de café em cultivo agroecológico vem passando por um processo de regeneração. As raízes dos pés de café atuam como descompactadoras do solo, abrindo caminho para a água da chuva infiltrar com mais facilidade.
A primeira colheita
No sítio de Jocilene e Silas, os mil pés plantados há três anos estão prestes a entregar sua primeira colheita, gerando expectativa e uma nova fonte de renda para a família. No entanto, o caminho até aqui não foi fácil. O último ano foi marcado por um período muito seco, exigindo dedicação especial.
“Aqui nunca fizemos irrigação; foi a cobertura de solo que nos salvou”, relata Jocilene. “Plantamos milho para ajudar no sombreamento, mas, mesmo com essa proteção, as folhas do café começaram a amarelar com o calor extremo, e a preocupação bateu forte.”
Foi nesse momento que a experiência da família entrou em cena. Eloisa, irmã de Jocilene, e seu marido Júnior, que atuam na produção de flores, uniram forças ao cultivo. Com vasto conhecimento em nutrição de plantas e controle biológico de pragas, eles trouxeram o suporte técnico necessário para superar as adversidades climáticas. O sucesso foi animador. Este ano já foram plantados mais 200 pés, e a meta é expandir o cultivo em mais um hectare – impulsionada pela qualidade do café, já elogiado por sua suavidade e sabor singular. O café vai ter como nome “Fabiano”, uma homenagem a seu pai.
Da colheita artesanal à xícara perfeita
O caminho do grão até a xícara é repleto de cuidados e detalhes, e foi esse percurso que Rodrigo Fernandes detalhou aos produtores presentes. Diferentemente dos cafés convencionais, os cafés especiais exigem uma colheita criteriosa: apenas os grãos totalmente maduros são selecionados. Na propriedade de Jocilene, o beneficiamento ainda é feito de maneira artesanal, e Rodrigo enfatizou que essa etapa, que envolve secagem e torra, é decisiva para garantir a qualidade final do produto.
Já na parte da tarde, o grupo conheceu a propriedade de Sandro Trevisan. Sandro é barista e alia o turismo rural à produção. Com a chegada de novos equipamentos – descascador, selador, torrador e moedor – ele está aprimorando os processos de beneficiamento para garantir uniformidade e elevar ainda mais o padrão do seu café que leva o nome da avó: vovó Zefina.
Qualidade de vida e identidade no terroir
Para Rodrigo, investir em cafés especiais não é apenas uma questão de mercado, mas uma profunda transformação social e ambiental.
“Quando falamos em qualidade de café, estamos falando, acima de tudo, em qualidade de vida”, afirma o especialista do INCAPER. “Os cafés com alta pontuação agregam muito mais valor, porque incentivam o produtor a melhorar o sistema produtivo como um todo – da nutrição do solo à pós-colheita. Essa região possui um terroir excepcional, e vejo nos agricultores um orgulho genuíno em dizer: ‘Esse café é meu, ele é único’. Esse é o verdadeiro espírito que o café especial traz para a vida das pessoas.”
Ao fim do dia, o intercâmbio promovido pelo Semeando Água ensinou que produzir com consciência ecológica não é um custo, mas o maior investimento para garantir solo fértil, água abundante e grãos de excelência – um ciclo virtuoso que começa na terra e termina com a satisfação de quem consome e de quem produz.
