No dia 10 de junho o Programa Semeando Água, uma parceria entre o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas e a Petrobras através do Programa Petrobras Socioambiental – estabelecida por meio de convênio entre as duas instituições, realizou a primeira oficina de contabilidade rural e formalização fiscal na sede do IPÊ, em Nazaré Paulista. A oficina foi ministrada por Giovana Gabriela, especialista em contabilidade rural e teve a participação de 20 produtores rurais que atuam com diversos produtos, entre eles: mel, flores, café, pinhão. Os participantes receberam orientações sobre contabilidade, entenderam as principais obrigações fiscais da atividade rural perante a Receita Federal, aprofundaram seus conhecimentos sobre a declaração do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF), receberam orientações sobre a importância da organização em relação a registros completos e sistemáticos e aprenderam como a prevenção de riscos pode evitar penalidades, autuações e problemas futuros.
Para os produtores que estavam acostumados com os talões de nota feitos a mão, atualmente todos os processos relacionados a contabilidade foram digitalizados. Dessa forma, as movimentações financeiras são monitoradas automaticamente como, por exemplo, a emissão de notas fiscais, as transferências via pix ou vendas realizadas por máquinas de cartão. Nesse contexto, a automação aumenta a visibilidade da atividade e permite o cruzamento de informações entre sistemas.

 

Conceitos básicos da atividade rural

A oficina teve início com a caracterização do que se enquadra ou não na categoria de produção rural. A instrutora abordou conceitos básicos relacionados a contabilidade, para que os participantes possam se aprofundar em um segundo momento. Para realizar um acompanhamento do desenvolvimento da atividade é essencial manter o registro de todos os gastos e vendas, assim como a documentação que comprova as transações. Os produtores rurais formalizado tem oportunidades melhores de comercialização, como mercados maiores e lojas virtuais, por exemplo.
 

 

Porque o conhecimento em relação a formalização é importante

“Hoje, sem a formalização e a padronização dos documentos fiscais, o produtor rural acaba ficando limitado no mercado. Com a obrigatoriedade da Nota Fiscal Eletrônica, quem não se adequara essa mudança poderá encontrar dificuldades para atender diversos clientes e acessar novas oportunidades de comercialização. Além disso, a falta de conformidade fiscal pode gerar riscos para a atividade, como autuações, penalidades e até a perda de benefícios destinados aos produtores rurais. O conhecimento em contabilidade vai muito além da emissão de notas fiscais. Ele é uma importante ferramenta de gestão, auxiliando o produtor no planejamento estratégico da propriedade, na organização financeira e na busca pela menor carga tributária possível dentro da legislação, tornando seus produtos mais competitivos.” explica Giovana Gabriela, analista administrativa e financeira do IPÊ.
É importante ressaltar que cada estado possui regras específicas. Durante a oficina produtores do estado de São Paulo e Minas Gerais apontaram algumas diferenças. Em São Paulo, todos os produtores com CAD/Pro ativo devem migrar para a emissão de Nota Fiscal Eletrônica. Em Minas Gerais, a regra se aplica a todos os produtores com IE de Produtor Rural ativa. A Nota Fiscal Avulsa Eletrônica (NFA-e) segue disponível no portal da SEFAZ-MG apenas para situações específicas.
A primeira atividade prática foi a emissão da Nota Fiscal Eletrônica do Produtor Rural (NF-e / NFP-e), com explicação do preenchimento de todos os campos. Os participantes utilizaram o espaço da oficina para retirar dúvidas em relação a seus casos específicos e trocar experiências entre si.
 

Tributos envolvidos

Os principais tributos relativos à emissão da Nota Fiscal Eletrônica são o Funrural e o ICMS. O Funrural é o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural, relacionado a contribuição previdenciária sobre a comercialização da produção. Já o ICMS é mais conhecido, o imposto cobrado sobre Circulação de Mercadorias e Serviços. Em caso de dúvidas específicas Giovana orienta que os produtores consultem seus contadores para que possam planejar a melhor maneira de declarar suas vendas e coletar os tributos necessários. Isso evita multas e cobranças retroativas devido ao desenquadramento correto.
 

Validação de documentos

Na segunda atividade prática os participantes foram divididos em grupos para simular estudos de caso. A tarefa era verificar a validade dos documentos apresentados e escolher a melhor opção para declaração do IRPF: lucro presumido ou resultado real a partir do livro caixa.
Os produtores rurais podem utilizar softwares ou aplicativos específicos que podem auxiliar as atividades cotidianas, como o Nota Fiscal Fácil (NFF) ou Emissor Gratuito Sebrae NF-e. Manter o livro caixa, onde são registradas as receitas, despesas e controle das atividades, é essencial para o fornecimento de informações para a contabilidade, inclusive na apuração do lucro real, o que pode reduzir o IRPF Rural.
Um dos exemplos demostrados foram as despesas passíveis de declaração para redução do IRPF Rural. Podem ser declarados aquisição de máquinas e implementos, benfeitorias e melhorias, aquisição de animais de produção e terras, desde que todas estejam comprovadas por meio de documentos fiscais e sejam comprovadamente utilizadas na atividade rural.
É importante estar atento aos detalhes. As despesas precisam estar alinhadas a atividade rural declarada. Por exemplo, para quem faz a venda de flores frescas, a compra de um caminhão refrigerado está alinhada a atividade, enquanto para quem transporta gado não.
 

Impactos da desorganização financeira

Manter os documentos que comprovem despesas gera segurança em caso de fiscalização, em caso de necessidade de comprovação perante a Receita Federal. Quando o produtor é fiscalizado, as multas por erros na declaração são maiores do que o imposto corretamente devido. Irregularidades acumuladas podem resultar em processos administrativos e judiciais. Para evitar que isso aconteça é necessário estar atento as boas práticas do produtor rural organizado.
 

Boas Práticas do produtor organizado

  • Registrar tudo: anotar receitas e despesas no momento em que ocorrem, sem deixar acumular.
  • Guardar documentos: manter notas fiscais e comprovantes organizados por mês e por tipo.
  • Emitir notas corretamente: formalize todas as vendas com o documento fiscal adequado.
  • Acompanhar a atividade: revisar periodicamente os registros e compare com os resultados esperados.
 

Colocando os aprendizados em prática

Charlene Silveira, produtora de mel, própolis e pólen de Piracaia, conta que já está no caminho para organização de sua contabilidade.
“Muito que foi ensinado eu já venho pondo em prática. Por exemplo, em relação as vendas na feira, eu criei uma planilha em que eu coloco a data, a quantidade do que levamos e depois faço inventário para conferir o quanto que vendemos, quanto que entrou, para a gente saber o que gastamos. A oficina clareou bastante, abriu caminhos e agora a gente até já sabe uma direção por onde começar. Tínhamos algumas dúvidas sobre os impostos de produtor rural e com as informações da oficina já passamos para o nosso contador e agora vamos conseguir resolver.”
Para Andrea Roque, produtora de flores de Atibaia, a oficina ajudou a pensar a produção de uma forma mais organizada.
“Vai me ajudar a entender esse mundo fiscal, inclusive lidar com ele de uma forma mais produtiva. Eu acho que o que esse curso me deu é visão de futuro. Como conseguir produzir, da mesma forma que eu produzo, mas dentro de uma lógica mais inteligente.”
 

 

Próximos Passos

A segunda oficina terá como tema as alterações relacionadas a reforma tributária. As regras tributárias tiveram atualização recente e possuem um cronograma em que passam a entrar em vigor. Por esse motivo é importante entender as novas regras e estar com contato com profissionais especializados.
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